30 de setembro de 2016

Cinismo da Morte

E foi sentindo aquele cheiro de café
perfumando a manhã ainda escura
do inverno mais gélido já testemunhado
na cidade mais quanto do inferno
 e fitando a delicada cautela do marido já grisalho,
para não acordar sua senhora já morta,
 que me peguei aos prantos treinando
a minha mente enquanto a destruía
 lembrando daqueles taciturnos olhos idosos
da efêmera 'desprovidação' de tal criança
recém-nascida, que fora tecida das mais
brandas fibras de pura utopia,
cujo os mesmos olhos já não veem a hora
de gargalhar anedotas contemplando
aquela maquina tossindo e sufocando
até enguiçar para que a livre da guilhotina
daqueles sons que o matam sem nem verificar
 se há ainda uma gota de vida
 que esteja correndo freneticamente
em direção do mais profundo núcleo
sobre um engarrafamento de neurônios
a procura, enfim, do meu eu interior
para que possas mesmo em vã fadiga
escarrar na minha cara
quaisquer outras ultimas lembranças
que não seja uma miríade de
deprimentes idosos que pulverizaram
osso após osso de suas juventudes,
que só estavam a salvas porque
depois de sentirem a vida sendo espremidas em suas
mãos, descobriram que só se cura machucando o outro.
Abjeta falsa devota que ficou louca
de tanto medo que tinha de enlouquecer
com a frenesi daquelas imagens que
incessantemente a perturbava hora após hora
do pranto daquela doce jovem ruiva sardenta
de olhos claros que refletia em suas
lagrimas de sangue a fealdade da
expressão amarga de um jovem imundo
que com um sorriso no resto a estuprava
aparentemente a sós, mas jazia ali,
a companhia de todos os demônios
que durante toda sua vida cultivou em solos fétidos,
e advêm a afazia da mesma ruiva
que felizmente jamais esqueceu aquilo que
a partir dali, justa e friamente
desejara que o frêmito da morte ecoasse
por toda eternidade dizendo:
Ele a estuprou... Ele a estuprou...!
E então não conteve o riso de sua impiedosa felicidade
já certa de que seria enfiada a mais grossa,
larga e comprida vara no anus de toda sua casta.

- Renato Franco




28 de setembro de 2016

A boca que mente

Não há entre nós quem viva
Somente aqueles que choram.
Alimentando suas almas famintas
Com mentiras que consolam.
A boca que mente diz:
"Um dia tudo melhora"
Sinto-me tão infeliz
Vendo a verdade ir embora.

- Gabriel Marins

Rua 71

De certo, há um portal sobrenatural
nas duas pontas daquela rua.
De longe se vê o abismo dentro dos olhos
das janelas quebradas
as madeiras roem os portões feito de cupim
As paredes são pichadas de sangue
e as poucas pessoas que saem na rua
parecem doentes mentais escondendo de si próprias,
misteriosas e taciturnas mentiras.
Todos que passam por lá um,
velho oriental solta seu corvo de estimação
que lhe acompanha até o fim da rua repetindo:
“Não vi, não verá, não viverá”
O corvo não parava...
“Não vi, não verá, não viverá”
Mas no fim da rua há uma criança
de olhos negros que não fala nem se move,
Suponho que é sua imaginação
que sustenta toda a inexistência daquela rua,
talvez não haja problema nenhum.
Os poetas sempre existirão na Rua 71.

- Renato Franco

26 de setembro de 2016

Teatro da vida

Monte seu palco,
o ensaio foi sua vida até aqui,
mas antes de se apresentar
certifique-se de que a plateia esta lá,
depois de todas essas coisas
que basicamente quem faz é o destino,
tudo que você precisa
é de uma faísca de coragem
para se incendiar e mostrar para o mundo
quem você é.

- Renato Franco

Novo homem

Espero pelo dia em que o sol não irá me incomodar,
O dia que iniciarei minha jornada.
Quando os pássaros cantarem o hino da liberdade,
Nesse dia encontrarei meu motivo para viver.
Quando minha alma for refletida nas águas,
Quando a chuva lavar minha mente,
Nesse dia serei um novo homem.
Quando minhas pernas cansadas continuarem,
todas as dores serão um grão de poeira,
Poderei tocar a mão de Deus e vê-lo sorrir.
É isso que estou sentindo agora
que enche meus olhos e que me faz arrepiar.
Nesse dia a vida terá um significado.
Quando o vento beijar minha pele,
Nesse dia viverei.
Quando a natureza me revelar suas belezas,
Nesse dia meu espírito dançará livremente.

Deus, não me deixe desistir,
não deixe que isso se perca dentro de mim!
Perdi coisas demais para ter noção do que devo fazer
e agora peço, do fundo do meu ser, permita-me viver!

- Gabriel Marins

25 de setembro de 2016

Uma gota de felicidade somente


Água escorre sobre a calha do telhado,
dentro de uma gota em especial,
via-se felicidade:
“A casa cheia de crianças, adultos e balões
festejavam a vida, festejavam o fim da guerra”.
Mas como tudo no mundo:
As coisas se repetem, se repetem, se repetem,
até desaparecer, para que algo novo se crie e se repita,
mas o novo nem sempre é melhor, pois hoje nada mais há
nem água, nem calha, nem gota e muito menos felicidade
Nada possuis.
Possuis ninguém.
Restaram somente as tristes lembranças
de um passado que não se rende a morte
para puxar os pés de volta para terra
e cortar as asas sempre que a criatura
metade homem, metade poeta
ousar alçar voo.

- Renato Franco

24 de setembro de 2016

Muda de Árvore

Minha respiração cansada,
sinto que não há oxigênio.
Me perco em planos
de uma vida que não é minha.
Tenho me importado
com pessoas que não deveria.
Alimento criaturas
para que rasguem minha alma.
Não sei  por que sofro,
nem se realmente sofro,
mas não quero sentir isso.
Me sinto um expectador de mim
que não tem poder de mudar,
só de observar o que acontece
e sofrer com isso.
Sou uma muda de árvore
que o vento enverga,
mas não remove.

- Gabriel Marins

23 de setembro de 2016

Nesta noite

Nesta noite
era para eu sonhar com você,
mas tive pesadelos.

O poeta carente de amor,
desesperado limpa sua boca,
pois dela, já não exala mais poesia.
Farto da saudade
profere apenas
fétidas palavras.
Seu amor sempre volta,
mas nesta noite não voltou.
O dia se passou
e uma flor ele a levou,
uma flor com pétalas de arrependimento
e perfumada de desejo.
Ambos se fitam.
Ela se derrete.
Ele a leva para casa,
e volta a ser um poeta.

Nesta noite
era para eu sonhar com você,
mas você não me deixou dormir.

- Renato Franco

22 de setembro de 2016

Abismos

Seus olhos são como portas.
Portas que estão abertas,
Que me convidam
e eu desejo conhecer-te.
A curiosidade me aflige,
Mas tento resistir,
pois tenho medo.
Todas as portas que conheci
foram ou se tornaram
Portas para um abismo
Que não tinham nada,
nem alma, nem amor.
Conheci a dor e a desilusão,
mas nunca uma porta que
me revelasse uma alma livre.
Eu acreditei que a sua seria livre,
tão livre que me faria feliz...
Estou sentando, escrevendo isso,
pois não tenho forças para escalar
as paredes desse novo abismo.

- Gabriel Marins

Velhice

Pés se arrastando
ao lado de uma bengala.
Era um velho manjado da vida
que borrifava suas rosas
guilhotinando décadas
em sua memória.
Memórias de uma vida ingrata
que depois de salvar
centenas de crianças da guerra
tudo que quer,
é cuidar de seu jardim cru
e rezar para não morrer
antes de vê-lo florescer.

- Renato Franco

21 de setembro de 2016

Vestes da expressão

Tamanha frenesi
acreditar na expressão
daquelas plácidas rugas.
A bochecha escorrida
o reflexo avermelhado
daqueles olhos de dilúvio
e o inquieto maxilar
que insiste em fremir
seu falso sofrimento
para o rapaz de suéter
que não se cansa de consumir
a gloriosa história
daquele velho solitário.
Mas pobre de mim,
que tanto demorei para perceber:
Se tratava de um poeta,
então de tudo se desdém,
são tantos ocultos sentimentos,
Mas agora, do avesso.

- Gabriel Marins

Dedico a vocês!

Pessoas são como grandes vasos
Que jorram decepções e arrogâncias.
Falsas, fracas, desalmadas, maldosas
Todas buscando ser diferentes
Mas, no fundo, são demônios fingidos.
Eu sou assim, desgraçado de sorte
e isso me entristece profundamente.
Gostaria de me limpar dessa lama fétida!
Poder livrar minha essência, minha alma,
Me tornar limpo, longe deles.
Mas não poderei,
pois nasci com a maldição de ser humano.
"Vista a camisa", "pinte o cabelo",
"Faça exercícios", "sorria" e "estude";
"Procure", "não nos decepcione",
"Seja diferente"...
Por que me torturam, dissimulados?!
Sumam da minha vida
e levem seus conselhos!
Mas eles insistem:
"Isso não vai te dar uma boa vida, amigo",
"As mulheres não gostam disso".
"Não fique triste, no final tudo valerá a pena!"
Que final? Aquele em que morro?

- Gabriel Marins

20 de setembro de 2016

O que tenho para te oferecer?

Ofereço os sentimentos puros
tão confusos, sempre intensos;
Ofereço a admiração do apaixonado,
pois sua beleza é incessante;
Ofereço os carinhos de um poeta
que deseja escrever em sua pele.
Não posso lhe oferecer muito,
mas me ofereço, de corpo e alma
Com todos meus vícios e virtudes;
com todos os sonhos e desejos.
Caso seja pouco o que ofereço,
Peço que aceite, como oferta única,
Este poema,
Que fiz enquanto desejava te oferecer
o que tenho de melhor.

- Gabriel Marins

Doce Espanhola

É um presente do destino
que a maré dos ventos do mundo
me trouxera de tão longe
a meiga paixão
em sua forma humana.
Os olhos se acorrentam para que
nem ouses não olhá-la.
Em seu sangue corria:
Os espanhóis,
Brasileiros
E coreanos.
Isso explica sua exótica e desejada língua
sua sedosa pele de areia
e seus esverdeados olhos de suspense.
Certamente as esculturas gregas se invejariam se a fitassem,
era o tão desejado amor à primeira,
segunda, terceira, quarta e todas as vistas que a visse.
Apenas clamo que não se vá
antes que me permita chamá-la de minha.
Agora e sempre.
Em vão, em vão,
tudo em vão
ela não me ouvia,
se quer me via.
De tão longe veio,
tanto amor deixou
e para tão longe voltou.
Aquilo era um adeus.
Se bem me recordo:
Seus passos se apressavam,
seus cabelos iam para traz e para frente
como a criança em um balanço.
E me resta apenas
me lambuzar
com as lembranças que nunca existiram
da doce espanhola
que nem seu nome deixou.

- Renato Franco

19 de setembro de 2016

Muro

O sentir foi suprimido, tornou-se um pecado que só pode ser confessado entre dois pecadores — algo que raramente acontece. Vivemos em busca do amor, mas eliminamos toda possibilidade de amar. Vejo muitas críticas aos meios de comunicações atuais, não compartilho dessa visão negativa sobre eles; seja por cartas ou por mensagens eletrônicas, a frieza está nas palavras, no desinteresse, no muro que construímos para proteger nossos sentimentos, um muro que nos impede de ver que estamos deixando eles apodrecerem. 

- Gabriel Marins

Tragédia do Barracão

Cheguei tarde demais.
As madeiras idosas choram
despedindo do solo que as sustentava,
o lugar era vasto,
mas não vasto o suficiente,
pois mal cabia as lagrimas daquela família,
Mas caberia de certo, a ganância da outra.
O dinheiro vê tudo, mas cega todos.
Afinal, quanto custaria
todo aquele sofrimento?
Ainda esperançoso do inevitável
vou para casa e volto cinco anos depois,
E tudo mudou. O barracão faleceu,
as lagrimas se mudaram,
ali brincava agora
a inocente burguesia,
as maletas, as gravatas e a
quimera dos sorrisos.
A família de que me lembrava
foi prantear noutro lugar.
Vi chorando na calçada
os despojos do barraco
que fora abandonado e trocado por pedras.
Ai de mim, deixar aquilo passar por inacontecido,
ofereço apenas minhas palavras
em memória daqueles órfãos sentimentos.

- Renato Franco

16 de setembro de 2016

Por que não choro?

Por que não choro?
Gostaria de sentir as lágrimas.
Por que é tão difícil?
Parece tão libertador.
Não sofro tanto para chorar facilmente,
Mas toda noite, quando apago as luzes
e, olho para o vazio,
me sinto só, na escuridão
e meu espirito clama pelo liberdade.
Desespero ou felicidade, não sei,
mas sei que é forte o suficiente
para umedecer meus olhos,
mas não choro.

- Gabriel Marins

Carta de Amor

Passava-se ali
um cardume de
palavras escritas em vão
em paginas mortas
que justificavam a intensidade
daqueles sentimentos
que ansiosos vão para de baixo
da tenda se esconder da chuva
que logo traz sua resposta
em paginas molhadas
que com um certo esforço dizem:
“Ai meu Deus, encontrei o amor da minha vida”.
Desviou os malditos olhos depressivos para baixo...
Não, não diga isso.
Você encontrou alguém que vai
rever algumas vezes talvez,
beijar algumas vezes,
talvez vão transar algumas vezes,
vão talvez namorar,
e porque não se casar talvez?
Mas o amor da sua vida...
Ah, deixa pra lá.

- Renato Franco

15 de setembro de 2016

Retribuições

Escrevi sobre pessoas
que não mereciam versos;
Mostrei minha alma
para quem não tinha uma;
Amei verdadeiramente
quem merecia desprezo;
Passei horas pensando
em quem deveria esquecer;
Mas não aprendi a agir diferente,
porque só há uma coisa à aprender:
As pessoas só podem nos retribuir
com sentimentos que possuem,
e, a maioria delas,
só possuem os ruins.

- Gabriel Marins

Birra

Põe-se a chorar
a criança que cede
o inútil desejo
de ter o que pede,
mas seu pranto dormiu
e o sorriso surgiu.
Aprendeu então a
controlar seu coração,
o tempo correu
a criança cresceu,
agradeceu o dia
que põe-se a chorar
só não podia
deixar de ensinar:
A criança que via
não sabia amar.

- Renato Franco

14 de setembro de 2016

Julgo

Veja o semblante do homem caído,
Beije seu rosto, enquanto ri de sua amargura.
Parece que todos os dias foram duros para ele
e esse não vai ser diferente.
Cansado, segue seu caminho de perdição,
Procurando no fundo de sua alma, buscando
O amor que todos falam,
um motivo para sua vida.
Deseja amar a si mesmo,
Para que isso possa libertá-lo.

Vamos, homem,
Busque seu tesouro escondido!
Torne seu fardo mais leve,
Desfrute do julgo suave.

- Gabriel Marins

Despedida

Que facilidade é esta
com que as pessoas dizem adeus,
porventura, não sabes vós
que não voltará mais
para os braços teus?

Não sei se eu sou muito frágil
ou eles que são muito fortes
Mas para mim,
as dores são muito doídas.

- Renato Franco

13 de setembro de 2016

O Sol

Há momentos na vida que as coisas boas acontecem,
Parece que Deus nos manda um refrigério.
A alma se torna menos dolorosa e angustiada,
Podemos sentir como é ter uma vida simples
sem sentir o vazio,
o arrepio pelo corpo,
o suor frio,
o desespero
Por um momento, curto e preciso,
Podemos tocar o sol sem nos queimar.

- Gabriel Marins


Sacrifício

Fadigava só de ver
o torpor daquela partícula
inocente, que sozinha
descia o ribeirão deixando
para traz um rastro de serenidade.
Desce, desce e enfim
chega ao fim do mundo
aonde encontra outras de si,
caindo de um pico juntas
que formam uma cachoeira
quente e curandeira,
que depois de muito viajar,
caí e escorre lentamente da
cabeça aos pés do menino,
absorvendo um fragmento de tristeza,
para findar em um ralo
ouvindo as baratas
cantando em seu funeral.
Um ultimo suspiro
e um sorriso
por saber que
o alivio de nossas dores
estava em sua existência.

- Renato Franco

12 de setembro de 2016

Baila, baila Maria

Que doce menino
de olhos brilhantes,
não se mexia
tampouco falava.
A vida era triste,
pois não vivia
parado ficava
fitando Maria.
Que doce menina
de bom coração,
cega de amor,
mas amor pela vida,
que não entendia
porque o menino,
viver não podia,
Começou então
a mostrar para ele
que mesmo inerte
a vida o queria.
Sussurrou o alfinete
sua canção preferida,
da cadeira de rodas
Maria o tirou
Abraçou o menino
que logo chorou,
pois nunca havia
dançado na vida,
então põe-se a sorrir
Junto com Maria,
o pobre menino
que agora vivia.

- Renato Franco

11 de setembro de 2016

Ego Ferido

O que fere o ego:
Lembrar dos erros passados
Ou continuar errando?
A cada passo, um tropeço
Todos vão e eu volto.
Preciso me redimir,
Mas não sei com quem.
Será que preciso mesmo?
O vazio preenche.
Me sinto tão cheio,
Cheio de nada,
Mas eles também estão
E não se importam
Ou parecem não se importar.
Por que me importo?
Porque meu ego esta ferido
e meu pensamento me aflige.
Oculto isso de todos,
Menos de quem mais me fere:
Eu.

- Gabriel Marins

Verbo Ser/Estar

Sou tudo
mas ao mesmo tempo,
sou nada.
As vezes consigo ser alguém,
mas só as vezes.
 Ainda se tivesse nascido
pra ser alguma coisa,
mas não tive essa sorte,
 no entanto,
vivo a procura de mim, mas
a cada passo que dou
fico com mais medo de não me encontrar.
A essa altura do campeonato,
rezo para que eu, ao menos, exista.

- Renato Franco

Aos Olhos do Manicômio

A importância daqueles sentimentos
era um retardo mental
nada realmente existia
mas tudo se criava.
Nós loucos
pensamos em loucuras
os mentalmente equilibrados
pensam na vida,
portanto, se alegarem
que a vida é uma loucura
estaríamos todos enlouquecidos
em nossa própria sanidade.

- Renato Franco

10 de setembro de 2016

Minha Compunção

Lentamente minhas lembranças perdem a força.
Amoldado pelas dores passadas e as recentes,
Ungido pelo cálice de lágrimas penitentes,
Rangi os dentes gastos e doloridos de raiva,
Aliviando minhas dores em versos sem rimas.

- Gabriel Marins

Nasce um escritor

De manhã servia-se fome.
No almoço serviram fome.
E na janta, fome também.
Todos os dias, o dia inteiro
se via apenas vazio
tudo vazio.
Nenhum rastro de júbilo.
A vida o desnudara
e estava tão franzino.
Como resistiu passar tanto tempo
Longe de suas amadas?
Logo ajoelhou-se em sua consciência
e começou a sussurrar
uma espécie de oração:
“Palavras, versos,
certamente em pouco tempo
morreria com suas ausências,
mas agora temos uns aos outros,
 e não mais vos abandonarei”
Ah, quão branda era aquela devoção.
Sentindo toda aquela amargura
descobriu que o essencial para
escrever não é uma caneta.
E aquela miríade
 de pensamentos fazendo uma orgia
de palavras e sentimentos
em sua cabeça querendo transbordar
pelos buracos da face que enfim cedeu,
tardio, mas cedeu,
pois escrevia para se libertar de si mesmo.

- Renato Franco

Flor

Há uma bela flor no alto do monte
Que ondula com a força do vento.
Da janela do meu quarto, observo
A beleza da sua dança primaveril.
O meu desejo é escalar o monte,
Sentir teu cheiro, bela flor.
Trazê-la comigo para casa,
Ver-te dançar todos os dias.
Oh, que pensamento tolo!
Murcharias em um vaso de vidro;
Perderia a cor, o cheiro, a vida
Não dançarias nunca mais.
Fique no monte que é teu lugar,
Dançando com o vento, rara flor.
Ensinando a este pobre homem:
Há belezas neste mundo
Que devemos admirar,
mas não ter.

- Gabriel Marins

8 de setembro de 2016

Negrinha Amada

Um desvio de olhar
De humanidade
E lá está
A negra surrada
Apontando para o coração
Cego da vaidade
Mostrai-lhes, mostrai-vos-me
O tamanho de ti
Que não há miss universo
Que me encante
Como encanta
Seu sorriso borrado
Façais-me imaginar
Como imagina
Uma criança
Pois o jardim
Que regas com seu
Blue-jazz
Eram as flores do
Lençol da nossa cama
Poderias tu
Chamá-la de
Negra surrada?
Vá para o raio que te parta
És minha negrinha amada.

- Renato Franco

7 de setembro de 2016

Ela...

Ela me visita com frequência,
Sempre a noite, sempre a sós.
Seus lábios buscam os meus
e recebo seus beijos angustiantes.
Ela me visita em vários lugares,
Não a tempo ruim, nem distância.
Ela quer me fazer caricias
Com seus dedos frios e tristes.
Ela sabe onde me encontrar,
Sempre aparece na hora certa
e diz coisas que me fazem rir,
Gargalhadas de escárnio.
Ela é só minha, naquele momento,
Me quer tanto e não me deixa.
Seu imenso amor me faz perecer
e me enche de lágrimas sufocadas.
Sinto que nunca me deixará,
O amarga tristeza que me ataca.
Amores passam, ilusões acabam
e ela sempre vem... Solidão.

- Gabriel Marins

4 de setembro de 2016

Faz de Conta

Na vida real...
Estamos sempre sozinhos.

Na vida real...
A cada 3.7 segundos,
morre uma criança de fome no mundo.

Na vida real...
Não importa o quão alto voemos,
Sempre vai existir um muro, chamado realidade
Maior ainda, pra gente se estrepar.

Na vida real...
Nem mesmo na poesia
há sentimentos.

Na vida real...
Precisamos da mentira
Para sobreviver,
Precisamos criar
Um lugar imaginário
Onde podemos esconder
Nossas emoções da vida real.

Na vida real...
Realidade é a única coisa
Que não existe.

Na vida real...
É tudo faz de conta.

- Renato Franco

Uma tarde de domingo

Vivo uma perfeita tarde de domingo... 
Sozinho, luzes apagadas, silêncio absoluto 
Posso ouvir o som do rádio de alguém 
O ventilador está ligado...  
Uma verdadeira tarde de domingo 
Sem ninguém, somente eu 
Escrevendo ou tentando 
Por quê? Porque preciso.  
Por um momento fecho os olhos
Posso me sentir flutuando pelo universo
Silêncio e solidão 
Minha alma torna-se completa
Cheia e calma...
Uma silenciosa tarde de domingo 

- Gabriel Marins

3 de setembro de 2016

Como é que eu faço
Pra esquecer você,
Minha linda menina
De tatuagem nas costas
E nó no cabelo?
Odeio lembrar
Das curvas do seu corpo
Enquanto fazia
Um nó no cabelo.
Era sempre o mesmo
Nó no cabelo
Todas às vezes
O tempo parava
Pro mundo te ver
Fazendo seu nó
O mesmo nó
Da minha garganta
Quando me disse
Que não haveria mais nós.

- Renato Franco

2 de setembro de 2016

O Homem

Ele observa as crianças brincando na praça, com um olhar triste e profundo. Medita sobre a sua vida, enquanto vê a inocência saltitando alegremente. O homem está perdido, suas escolhas o reduziram a lamentações e arrependimentos. Não vê mais saída, está tudo escuro e confuso. Quantas vezes ele tentou recomeçar, somente para sofrer com a frustração depois. Ele insistiu, se humilhou e rogou aos céus que lhe dessem, ao menos, um momento de alegria. Ele teve bons momentos, mas não foram aproveitados . Quem pode julgá-lo?
Ele não consegue sorrir, não confia mais nas pessoas e nem em si mesmo. Já não é mais homem, não está mais vivo e não tem nada que lhe conforte. Vive atormentado por sua consciência. Quando saiu da farmácia, pediu a Deus que lhe desse uma última visão de alegria. Agora, assiste as crianças brincando. Não sorri, mas sua alma está agitada. Ele vai para casa, vai combinar todos os remédios e bebê-los de uma vez, vai sofrer e, talvez, terá sonhos felizes. Você pode julgá-lo?

- Gabriel Marins

1 de setembro de 2016

Sólida

São
As coisas que fazemos para não amar 
São 
Os sentimentos do deus caído 
São 
Sonhos esquecidos por novos sonhos 
São 
As pessoas eternas sendo trocadas 
São
Os filhos vindouros que não virão 
São
As dores causadas pelas notícias felizes 
São
Os ventos que gelam meus ossos a ponto de trincá-los 
São
As sombras que riem descontroladamente de minha dor 
Essa maldita dor 
Que de tão forte 
Parece ser sólida 

- Gabriel Marins

Velha

O Banco sustentava
a fissura dos olhos
que olham a casa, a velha,
o gramado, os gatos e o portão.
Mas tudo é velho,
no portão há ferrugens,
pranteia a casa por sua solidão e
a sede do gramado anseia
por uma borrasca que seja
os gatos se calam,
e a velha...
Ah, pobre velha
que navega nesse dilúvio de solidão
com sua canoa feita de lembranças e lagrimas.
Seus cabelos eram deslumbrantemente alvos,
ela escarneava de sua mal vivida vida.
Ainda no banco reciclo pensamentos
sujos e amargos:
“Pobre velha esquecida pela morte”
Pensou a velha então
com seu sereno sorriso de sete dentes:
“Pobre ignorante jovem,
Com sua caneta e papel,
perdido em suas palavras
que de tão efêmeras,
sequer existem”.

- Renato Franco