31 de agosto de 2016

Algemas da Consciência

Religião: você é filho de deus.
Ciência: você é um acidente cósmico.
Poesia: você lá é coisa alguma?
Na matemática, tu és zero
Em português, nem uma sílaba tu és
Para ser, antes é preciso não ser
Para compreender, sem subjetividade quem somos,
A primeira e mais sabia coisa a fazer
É admitir que somos poeiras,
E ter visão, profunda visão,
Para entender o quão torpe e irrelevante é tudo que pensamos, sentimos, falamos, fazemos e aí, e somente aí,
Começará a se moldar e evoluir na forma mais pura do ser humano, sem a intervenção prisioneira
De tudo que nos define como isso ou aquilo.
Não é, infimamente, que seja mentira
Tudo que nos ensinaram sobre as coisas que nos libertam do mundo, mas sim e apenas, que o mundo nunca foi uma prisão.

- Renato Franco

30 de agosto de 2016

Vivendo o Passado

Vivo o passado novamente,
A velha mesinha de apoio,
A cadeira não tão confortável,
O computador ligado,
A cama ao lado...
Agora sou capaz de escrever,
Sinto que é mais fácil assim,
Me sinto profissional,
Pareço um escritor realmente.
Tenho problemas suficientes para ser um:
Uma mulher que amo e que não me quer,
Minha liberdade roubada,
Uma vida sem muitos progressos...
Quanto mais tento fugir,
mais a vida faz questão de lembrar:
"Você nasceu para isso, foi escolhido"
Oh, quanta falta de sorte!

- Gabriel Marins

Vento que passa

Essa
estranha
angústia
que o tempo
rege.
Esse
dó, ré
agudo
que rasga
a velhice.
Esse
Canto
de olho
de quem
Se arrepende.
 
Se trata daquele retrato:
                                                         Cadeira vazia.
                                                          Lixeira vazia.
                                                         Barriga vazia.

Acho que a vida passou por aqui.

- Renato Franco

27 de agosto de 2016

Como seria o paraíso?

Um lugar com dias de sol ameno, ótimos para caminhar, e teríamos paz para observar os pequenos detalhes da imensidão. Agradeceríamos a Deus em todos os momentos, e o sorriso nunca nos abandonaria. Doces devaneios, dúvidas abençoadas e grandiosas revelações seriam nossos passatempos. Não haveria a necessidade da aprovação, só do autoconhecimento. Correríamos livres, como crianças, sem preocupações ou tristezas. Doce paraíso que imagino, que me faz ter paz enquanto escrevo. Não mereço, mas gostaria de saber como é. Não aguento imaginar e, consequentemente, manter minha alma calma.
Imagino que o inferno seja isso que temos dentro nós. Que perturba nossa alma, que parece corroer nosso ser, mas que nunca corrói. Aqui nesta vida terrena, busco encontrar a verdade nas coisas e, de vez em quando, tenho vislumbres através de pequenas situações do dia-a-dia, como a demonstração de amor de uma mãe por seu filho; a beleza de uma planta sendo regada pela chuva; os sentimentos confusos gerados pelo amor; no conjunto de notas que formam uma sinfonia ou nos escritos de seres iluminados. 

- Gabriel Marins

Ciclo

Todas as manhãs
ele injetava
uma dose de solidão na veia.

Todo amanhecer, lhe torturavam
com aquela branda voz inocente.

Todo raiar do sol, ecoava pela casa
o som dos velhos brindando a liberdade.

E a cada vulto se vi moedas banhadas a ouro
derramadas sobre sangue.

Todos os dias acordava perdido andando a esmo,
olhando a vida acontecendo ao seu redor.

Era um ciclo,
nada mudava nada fazia sentido.

Todas as noites desmaiava numa overdose de lamentações:

“Nos deram a vida,
mas não nos disseram
o que fazer com ela”.


- Renato Franco

26 de agosto de 2016

Nasci

Não nasci para isso.
Olhei para dentro de mim,
Relembrei velhas lembranças,
Senti os velhos sentimentos 
que me seguem como discípulos.
Nasci para isso,
Para ser o ponto de partida;
O eterno recomeço; 
A ansiedade da conquista;
A decepção de não conquistar;
O beijo que quer ser dado;
O abraço que nunca darei; 
Todas juras quebradas; 
Os recomeços esperançosos;
Os fins dolorosos... 
Nasci para não nascer.

- Gabriel Marins

Sobreviva

Morremos a cada decepção,
a cada perda.
Morremos a cada despedida,
a cada rejeição.
Morremos a cada lágrima.
Nos dias de hoje,
Morremos e ressuscitamos
todos os dias.

- Renato Franco

25 de agosto de 2016

Borrão

Lá estava a vida passando,
Em cores distintas,
As flores sorriam,
Do alimento que tinham.
A chuva então, esfria o asfalto
Que exala seu cheiro
De nostálgica lembrança:
“A brisa do mar,
os fogos de artifício,
o pé na areia,
a mágica noite,
noite infinita”.
São bons pensamentos,
Corações pulsando,
Largos sorrisos, todos são belos,
Bela é a vida.
Mas o quadro se borra,
Aos poucos se desfaz,
Aos poucos a vida esfria,
Cores já não há,
A chuva se esconde,
Ferve o asfalto,
e os corações se partem
Pelo suicídio das flores.

- Renato Franco

Luzes Acessas

Acorda com ardor da despedida
O coração que cessa,
Lamentando enquanto é sepultado
Por sua mentecapta amada
Que desaparece na neblina
Esnobando a dolência daquele jovem
Que lhe jurou amor eterno,
Mas que agora,
Chora ao lembrar
Que havia pedido
Para que antes de partir
Deixasse as luzes acessas
Para que lhe restasse, ao menos,
Sua sombra.

- Renato Franco

Morena

Ao vê-la
Entristeceram-se e pensaram:
- Será a morte ou o amor?
- Porque não cogitou a vida?
- A vida não é um problema.

Era irresistível contemplar
o sofrimento daquela morena
sua pele queimada moldava
a solidão em seu rosto,
sua boca se nega
beijar qualquer outra
e seus olhos gotejavam segredos.
Estava morrendo em memórias:
“Choro toda vez que leio essas paginas,
mas, por favor, não enxugue minhas lagrimas”
Lembrou a negra de suas únicas
palavras para seu amor.
Ela jamais entenderia
que esse amor foi, é e será
invisivelmente sempre recíproco,
afinal, o que seu amor dizia era:
“Lamento minha mulatinha,
não vamos mais nos ver”.

- Renato Franco

Pássaros da Infância

É inverno
Atrações de circo observam:
O câncer dentro da casa,
a íngreme montanha pincelada de branco,
três jovens incomodando a montanha.
Do topo viam:
Palhaços malabaristas,
o câncer enferrujando a casa,
mas não veem as estações,
seus lábios estavam
roxos, esbranquiçados
e tremiam.
Do topo da montanha
viam apenas
suas infâncias congeladas.

- Renato Franco

24 de agosto de 2016

Adjetivos

De todos os adjetivos que você queira me dar, 
peço que me dê somente aqueles que mereço ter, 
ou melhor, não me dê nenhum.

- Gabriel Marins

Lamentações

Estou sendo afetado,
Me sinto mal por não me alegrar,
Não há nada de poético em mim,
lamentações e lamentações.

Pergunto-me: cadê a beleza dos versos?
Estou escrevendo, mas me sinto amarrado.
Minha mente lança palavras e mais palavras
"não escreva isso"

Deus, meus versos são pesados,
Escrever está sendo difícil.
Não me deixe sem essa alegria,
Preciso disso para continuar.

Estou perdido em pensamentos...
Penso que se a vida fosse justa,
Não haveriam poetas.
Consegue imaginar o quão ruim isso seria?

- Gabriel Marins

Quem irá pular comigo?

Ninguém fala, ninguém vê,
Ninguém sente, ninguém vive.
Mas todos sabem como é
E disso você não duvida.
Acusamos todos
Dos crimes que cometemos.
A delação do degenerado
Pode torná-lo menos degenerado?
Me dê sua mão,
Pois logo o abismo chegará
E quem irá pular comigo?
Eu e meus pecados; eu e você.

- Gabriel Marins

Os que não sabem sentir

Eles estão presos demais para sentir,
Sóbrios demais para beber o prazer.
Eles riem, estranham e nunca saberão.
Perderam o beijo do anjo e riem de si.
Vivo em busca de almas que sentem,
Daquelas que sabem como viver,
Que beijam pensando na nudez,
e na nudez saboreiam a carne.
Dance comigo, alma angustiada!
Deixe meus versos tocá-la
Não negue o prazer da carne
e liberte sua alma das amarras
Não chore pela tolice deles,
Os que não vivem por medo.
Feche os olhos, respire fundo.
Este é o nosso universo,
Infinito em sua efemeridade.

- Gabriel Marins

Bendito Deus

Bendito Deus que deu aos homens
O dom de escrever os poemas,
Pois o que seria das almas aflitas sem eles?
O que seria de mim sem Pessoa?
O que seria de mim sem Bukowski?
Seria a angústia que dilacera;
Seriam os sentimentos ruins,
Desconhecidos, obscurecidos...
Estaria tão perdido,
Mas Bukowski descreve como é
E Pessoa me diz o que sou
Nada além de sonhos,
Tudo além de alma
Jogue os dados
E veja meu rosto
O rosto de quem não escapou.

- Gabriel Marins

Em que lugar está?

"... o mundo está constantemente impregnado pelas rosas da felicidade, mas nenhum de nós sabe disso." 
- Jack Kerouac 

Está nos picos das montanhas
ou nas profundezas das matas;
Está no carinho da mãe
ou na inocência da criança;
Está nos raios de sol pela manhã
ou na brisa calma da noite;
Está em todas as coisas.
Está em você perguntando:
"em que lugar está?"
Enquanto ignora o céu azul...

- Gabriel Marins

23 de agosto de 2016

Anjos nas Ruas

Há anjos festejando nas ruas, iluminados, distribuindo bênçãos, como círculos de fogo que queimam a todos que tocam, mas ninguém quer tocar. Estamos perdidos, fracos e sem rumo. Tudo é tédio, tudo é sofrimento e o fruto parece ser mais doce na boca dos outros. Passos em falsos, medo de viver e amor sem intensidade - Será que amamos realmente?
Não confiamos nos anjos, o que há de errado conosco?
Há um vazio imenso que nada preenche e que machuca tão intensamente que parece não ter fim. Angustiados, aflitos, feridos pelo sofrimento. Nada prossegue, não temos futuro. Voltamos ao marco zero. Machucados pelas experiências ruins e correndo para experiências piores.
Já não lembro dos sentimentos inocentes e puros, não lembro se amei, não lembro de ter sonhos e não quero lembrar. Anjos derramem seu fogo em nós! As palavras fogem, estamos com medo e não queremos mostrar. Somos fracos que encontraram força na fraqueza. Orgulhosos, fúteis e perversos. Negamos os anjos e lamentamos por sermos negados.

- Gabriel Marins